A Última Frequência
O rádio do observatório captava apenas estática há anos. Os cientistas se revezavam nas madrugadas, olhando para as telas, não por esperança — mas por teimosia. O silêncio do cosmos havia se tornado quase familiar, como o som do próprio vazio.
Então, uma noite, um estalo.
Um sinal. Breve, mas inegável.
Três pulsos, um intervalo, depois mais três. Nada que a natureza fizesse sozinha.
Por um instante, o planeta inteiro prendeu a respiração.
A confirmação de que não estávamos sozinhos — o sonho de milênios — parecia finalmente real.
Mas o sinal nunca se repetiu.
Anos depois, quando os mares começaram a engolir as cidades e os satélites caíam um a um, alguém encontrou o registro antigo daquele som.
Era idêntico ao último envio que a própria humanidade fizera antes da queda das redes: uma mensagem de saudação interestelar, perdida no eco do espaço.
Talvez o sinal não tivesse vindo de fora.
Talvez tivéssemos ouvido o reflexo de nós mesmos, viajando por entre as ruínas da vastidão — um eco de uma espécie que quis se encontrar, mas só descobriu seu próprio desaparecimento.
E no fim, o universo permaneceu em silêncio.
Não porque estivesse vazio, mas porque todas as vozes, em algum ponto, haviam se calado da mesma forma.


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